“BILHETE DA OUSADA DONZELA”

O texto abaixo foi feito a partir da poesia de Adélia. Um exercício de dramaturgia

Bilhete da Ousada Donzela

Jonathan,
há nazistas desconfiados.
Põe aquela sua camisa que eu detesto
– comprada no Bazar Marrocos –
e venha como se fosse pra consertar meu chuveiro.
Aproveita na terça que meu pai vai com minha mãe
visitar tia Quita no Lajeado.
Se mudarem de idéia, mando novo bilhete.
Venha sem guarda-chuva – mesmo se estiver chovendo –
Não agüento mais tio Emílio que sabe e finge não saber
que te namoro escondido e vive te pondo apelidos.
O que você disse outro dia na festa dos pecuaristas
até hoje soa igual música tocando no meu ouvido:
“Não paro de pensar em você.”
Eu também, Natinho, nem um minuto.
Na terça, às duas da tarde,
hora em que se o mundo acabar eu nem vejo.
Com aflição,
Antônia

Adélia Prado

“BILHETE DA OUSADA DONZELA”

De José Antônio do Carmmo – Para uso do texto, favor consultar o autor.

Café da manhã na casa de Antônia. À mesa, estão os pais de Antônia e o tio Emílio.

CENA I (Pai, Mãe, Tio e Antônia).

Pai: Tem certeza que não quer vir conosco filha?

Antônia: Tenho. Não estou muito disposta hoje…

Tio: (irônico) Sei… Não está disposta…

Mãe: Deixem a menina. Mulher tem destas coisas. Às vezes amanhece indisposta.

Pai: A tia Quita não vai gostar nem um pouco. Sabe como sua tia gosta de você!?

Antônia: Dá um beijo nela por mim e diz que farei uma visita assim que puder.

Tio: Vai ficar em casa o dia todo? Ou vai…

Antônia: Ou vou o quê tio?

Tio: Ou vai passear na feira de pecuária? Outro dia, vi que você estava muito “entusiasmada” na festa…

Antônia: Não agüento mais suas implicâncias comigo, tio!!!  Não posso me divertir!!? Já estou crescida para saber o que devo fazer ou não dá minha vida!!

Pai: Olha o respeito menina!! Pode ser crescida, mas ainda não é dona do seu nariz. Não quero filha minha falada por aí…

Antônia: Mas pai, eu não fiz nada de mais… Estava feliz, dancei um pouco com meus amigos na festa. E agora vem o tio jogando indiretas…

Tio: Há amigos e amigos…

Pai: Emílio, você sabe de alguma coisa que não sei?

Tio: (encarando Antônia) Não. Só estou pegando no pé da minha sobrinha… Adoro vê-la irritada. Fica tão bonitinha!!!

Mãe: Vocês querem parar com isso! Já estamos atrasados. Lajeado fica longe. Terminem logo o café… (telefone toca) E agora o telefone para atrapalhar… espero que não seja a comadre Penha, ela fala pelo cotovelos!!! Alô!!! Alô!!! Alô!!! (desliga) Diacho!!! Todo dia é isso… liga e não fala nada! Esse povo não tem o que fazer?

Tio: (olhando para Antônia) deve ter sido algum engraçadinho… tá cheio deles por aí…

Mãe: Bom, vou ajeitar o resto das coisas para sairmos. Querido, não esqueça de pegar o encomenda da tia Quita no armazém do Joaquim.

Pai: Vou fazer isso agora. Espero você no portão. Vem comigo Emílio? (dá um beijo em Antônia e sai)

Tio: Já vou. Vou só terminar esse café.

CENA II (Antônia e o Tio)

Tio: espero que saiba o que está fazendo.

Antônia: Fazendo o quê?

Tio: Menina! Menina!!! Seus pais irão ficar desapontados quando descobrir…

Antônia: Descobrir o quê tio?

Tio: Você sabe do que estou falando.

Antônia: Não sei e não quero saber.

Tio: Não gosto desses seus amigos felizes…

Antônia: Você não tem amigos? Não se diverte? É só isso, diversão. Sair para não fazer nada, só rir… tem algum problema nisso?

Tio: Ok. Vou fingir que acredito… (Vai sair)

Antônia: Tio, você vai ficar por aqui muito tempo? Pensei que era uma visita rápida!

Tio: Te incomodo?!!

Antônia: (cara de nada) não.

Tio: Fico o tempo que precisar… tenho assuntos por aqui… (sai)

Antônia: Cara chato!!!

Mãe: (voltando) Tchau filha. Cuida da casa.

Antônia: Pode deixar. Tchau!

Antônia: (vai até a Janela e verifica se eles se foram. Pega o telefone e disca) Você é maluco!!! Não te falei para não ligar tão cedo. Eles acabaram de sair. Dá mais um tempo e vem para cá… Mais cuidado!! Acho que estão nos vigiando… meu tio tá desconfiado de alguma coisa… vive jogando indiretas… Evita chamar atenção… e pelo amor de Deus, não coloca aquela camisa que eu detesto… aquela que você comprou no Bazar Marrocos… ela grita mais que sirene de ambulância… vem mais discreto.. evita chamar atenção… (barulho na porta) tenho que desligar… te espero…

Tio: Quem era?

Antônia: Ninguém… Não responderam… tava mudo…

Tio: (irônico)… deve ser algum engraçadinho…

Antônia: Não vai mais?

Tio: Esqueci minha carteira. Não dá para sair sem identificação nestes tempos…

Antônia: Mas seu uniforme fala por você…

Tio: Fantasias… existem muitas por aí… hoje em dia qualquer um pode ser militar…

Antônia: É. Tempos difíceis…

Tio: (saí)

Antônia: (verifica e liga) Dá um tempo aí… não vem agora… meu tio voltou… te ligo assim que ele sair…. (começa a arrumar a mesa do café)

Tio: Tô indo!

Antônia: Abraços na Tia Quita…

Tio: Pode deixar… E, só mais uma coisa: cuidado com as companhias na nossa ausência…

Antônia: (militarmente) Sim Senhor!!! (verifica se ele saiu) Cara chato… vai cuidar da sua vida titiozinho … (ao telefone) OI… agora pode vir, o chato do meu tio já se foi… não sei não… ele tá muito xereta… temos que ter cuidado… tô te esperando… olha a discrição…

(Antônia continua a arrumar a mesa de café. Ansiosa, olha pela janela várias vezes.)

Antônia: Espero conseguir… quando penso nos meus pais… não posso voltar atrás agora… é tarde para remorsos… (batem na porta dos fundos)

Antônia: Já vou…

CENA III (Antônia e Jonathan)

Antônia: Que bom que chegou… (dá um beijo)

Jonathan: Não paro de pensar em você… (dá um beijo)

Antônia: Eu também, Natinho, nem um minuto…. (beija) Tomou cuidado… alguém viu você entrar aqui?

Jonathan: Não. A rua estava vazia. Vim pelos fundos para evitar a vizinha da frente… tive que pular dois muros para chegar aqui… ninguém me viu…

Antônia: Estou com medo. Acho que estão nos vigiando… meu tio tem jogado indiretas…

Jonathan: Esse seu tio tinha que aparecer por aqui, bem agora?

Antônia: Ele pegou todos de surpresa. Não era aguardado, ainda mais durante este conflitos deveria estar de plantão no quartel.

Jonathan: Não conseguiu descobrir o que ele veio fazer aqui?

Antônia: Não. Ele não diz… diz apenas que tem “assuntos por aqui”…

Jonathan: que tipo de assuntos será…

Antônia: Não sei. Hoje, no café, ele falou dos meus amigos felizes na festa dos pecuaristas… será que demos bandeira?…

Jonathan: Agora não dá mais para ficar preocupado… Hoje temos que agir…

Antônia: É. Hoje é o dia…

Jonathan: Então vamos. Precisamos nos juntar aos outros.

Antônia: (sensual) Será que antes você não quer dar uma olhada no meu chuveiro… ele não tá funcionado…

Jonathan: Com todo prazer… (saem se beijando)

CENA V

Café da manhã na casa de Antônia. À mesa, estão Antônia e seus pais. De fundo um rádio ligado…)

Pai: (lendo jornal) O que está acontecendo com este país? Cada dia que passa aumenta o número de depredações e atentados contra o governo.

Mãe: Bem feito para este governo corrupto. Alguém precisa fazer alguma coisa…

Pai: Nada justifica a violência… Ontem explodiram uma bomba caseira na porta da prefeitura ferindo pessoas comuns. Esses delinquentes deveriam ser presos!

Rádio: Notícia urgente!!!

Pai: Aumenta o rádio.

Rádio: Os militares já identificaram os delinguentes que andam depredando e promovendo atentados contra o governo. Um bilhete, intitulado “Bilhete da ousada donzela”, foi encontrado no local do último atentado, confirmando as suspeitas dos militares. Não conseguimos ter acesso ao conteúdo do bilhete… Voltaremos mais tarde, direto do quartel, quando saberemos o nome de cada delinguente…(A voz do rádio vai se misturando com barulho de sirene e barulho de carros parando. A porta da casa de Antônia e aberta com violência. Aparece o Tio)

Antônia: (que estava impassível durante toda cena, tomando seu café, só levanta a cabeça, fitando o tio) CAFÉ TITIO!!

FIM

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