“Saciedade de consumo”

Hoje pela manhã, durante a minha caminhada, vi um morador de rua fazendo sua higiene matinal, ou seja, escovando seus dentes por um longo tempo. E por alguns instantes fiquei pensando na DIGNIDADE.

Durante uma caminha ou corrida, você tem tempo para pensar. Pelo menos eu prefiro andar ou correr sem mp3, mp4, ad infinitum- estamos na modernidade e temos muitas opções para nos ocuparmos. Eu prefiro caminhar sem nada, deixar que meus pensamentos me levem, ser adepto do método peripatético, aprender caminhando… O ato daquele morador de rua me levou a pensar. Várias perguntas vieram: de onde ele vinha? Será que está numa situação provisória? O que ele faz da vida? Quanto tempo aquela visível preocupação com os seus dentes vai durar? Qual o seu nome, sua idade? Qual o nosso fim nesta sociedade?… enfim, muitas coisas passaram pela minha cabeça.

O ato de escovar os dentes demonstra que naquele morador de rua ainda existe respeito por si. Digo ainda, pois conforme o tempo for passando este rapaz poderá perder este respeito e se entregar a dinâmica perversa da rua. Daqui a um tempo ele estará tão inserido na rua, tão identificado em ser parte dela, em ser mais um descartado pela sociedade, que começará a perder o respeito que ainda existe.

É essa a dinâmica da rua. O sujeito vai parar nela por algum motivo que foge do seu controle, seja social, físico ou psíquico. Na rua se mistura as muitas informações – casas, carros, viadutos, ruídos, propagandas, mercadorias – vira mais um neste bolo-social-vivo. Ele, o sujeito, fica na rua, mora nela e dela tenta conseguir seu sustento, seja pedindo ou tirando do lixo. Na rua vai se enfiando, ficando sujo e se misturando ao resto jogado fora pelos outros. Vai se transformando em humano-lixo. Ele vai se identificando tanto com a rua que passa a ficar “quase invisível” aos outros, como se fosse comum morar na rua e viver na rua. Aos poucos ele também vai se achando invisível e começa a criar seu próprio mundo. Fala sozinho, xinga, grita, recolhe coisas. Está tão impregnado da rua que vai aderindo ao seu corpo tudo que nela encontra. Entra numa espécie de demência. Seria para se ausentar deste mundo, que de tão real, dói?

Não sei o que levou aquele rapaz para a rua, mas sei que ele me levou a pensar. Pensar nesta sociedade maluca, que descarta pessoas. Estamos entrando na dinâmica perversa da vida. Compramos tudo e descartamos logo em seguida. Vivemos numa “saciedade de consumo”. Estamos perdendo a nossa dignidade em prol de ter, de ter o melhor. Aguentamos gritos e xingos dos patrões para garantir nosso emprego. Mas estamos tão descartáveis, que daí a pouco alguém mais preparado abalará nossa garantia e, em seguida, outro virá e abalará a garantia do que acabou de chegar, ad infinitum… É preciso correr e não ficar parado. Queremos não ser invisíveis, mas estamos inseridos numa grande massa, invisível. Temos a falsa segurança de ter, de pertencer.

Resumo da ópera: Tanto aquele rapaz na rua, quanto eu no meu pseudo mundo seguro, somos ingredientes de um bolo-vivo-social numa sociedade de consumo com uma “saciedade de consumo”. Estamos sendo reduzidos a NADA… Ficamos dementes e criamos falsas garantias para nossa existência. O mundo é real e dói!

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