TELA EM BRANCO

Quando estive no CPT do Antunes Filho, sempre ouvi dele que o ator tem que desenhar (todos os gestos são arquitetados, projetados, nada é por estímulo burro… palavras dele) o personagem no espaço, entender as emoções do personagem e deixar que a plateia entre no jogo, seja completando ou entendo o personagem. A plateia não é burra!

Uma imagem que ele, Antunes, usava é de uma grande tela em branco, onde os atores afastados, não é o afastamento brechtiniano, têm à sua frente essa tela, onde o ator desenha os traços e sugestiona as emoções do seu personagem. Quando comecei meu trabalho com bonecos, fiz uma relação, não sei se equivocada, mas é minha, com essa imagem utilizada por ele. Vejo o boneco com esta grande tela em branco, onde eu como manipulador dou sugestões de emoções e traços (arquiteto seus gestos) de personalidade. Acredito que o meu trabalho enquanto ator, usando meu corpo como instrumento, ou trabalho como manipulador é o mesmo. É necessário que você entenda o seu personagem e construa toda sua gama de emoções, gestos. A diferença é a quantidades de músculos que ator usa no ato da representação contra a falta de músculos do boneco. Com o boneco eu utilizo todo o meu corpo durante a representação, com uma dificuldade a mais, ter que transferir para a forma inanimada tudo aquilo que construí no meu corpo de ator, tendo a atenção para “anular” o meu corpo de ator. Ou seja, deixar que tudo que estou sentido, corporalmente e psicologicamente, seja transferido para aquela massa inerte. Durante a representação todo este projeto de gestos, emoções, tem que ficar a cargo do jogo. Tem que ser tirado da manga na hora certa. Não pode servir como um manual de instruções de como fazer, mas sim como possibilidades de estratégias de jogo.
Na truks, sempre que estávamos com alguma dificuldade de realizar algum gesto ou emoção do boneco, experimentávamos no nosso corpo primeiro para depois executar no boneco. Com o passar do tempo isso vai se tornando quase instintivo. Você pega a massa inerte e imediatamente a vida lhe vem.
Hoje, quando começo um trabalho novo, é impressionante, mas consigo ver aquela criaturinha que está surgindo a minha frente. Com todas suas neuroses e emoções. Quando consigo ver esta criaturinha livre de mim, quase independente de mim, aí começo a ver o personagem surgindo. E como é estranho depois olhar para ele encostado, inerte!!!

Neste tipo de atuação, nenhuma das partes tem que se impor. Nem o ator, nem o boneco. É um trabalho de simbiose. Ele precisa de mim e Eu preciso dele. Ele me pede e eu dou. Eu peço e ele me dá. É uma troca de energia.

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