Artur Azevedo

INTRODUÇÃO

Um Brasil em crise. Em 1850 foi extinto o tráfico de escravos, acelerando a decadência da economia açucareira; o deslocar-se do eixo de prestígio para o sul e os anseios das classes médias urbanas compunham um novo quadro para a nação, propício ao fermento de idéias liberais, abolicionistas e republicanas. De 1870 a 1890 serão essas as teses que tomaram conta das inteligências nacional, cada vez mais influenciados pelo pensamento europeu, que na época girava entorno da filosofia positiva e do evolucionismo. Comte, Darwin, Spencer, dentre outros, foram mestres de alguns intelectuais brasileiros como Tobias Barreto, Sílvio Romero, Capistrano de Abreu, e no final do século, de Euclides da Cunha, Graça Aranha. Estes homens viveram a luta contra as tradições e o espírito da monarquia. Os anos 60 tinham sido fecundos como preparação de uma ruptura mental com o regime escravocrata e as instituições políticas que o sustentavam.

O tema abolição e, em segundo momento, o da República serão o ponto de apoio das opções ideológicas do homem culto brasileiro a partir de 1870. Raras vezes estas lutas estiveram dissociadas: a posição abolicionista, mas fiel aos moldes da monarquia constitucional, tendo em Joaquim Nabuco, o último romântico liberal do século XIX, seu seguidor. Mas a norma foi demolir a tradição escolástica e o ecletismo romântico ainda vigente, e pedia à França ou aos Estados Unidos modelos de um regime democrático.

No plano da invenção ficcional e poética, o primeiro reflexo sensível é a descida de tom no modo de o escritor relacionar-se com a matéria de sua obra. A ligação que se estabelecia entre o autor romântico e o mundo estava afetada por uma série de mitos idealizantes. Os temas escolhidos são naturalmente mitizados. Há um esforço por parte do escritor anti-romântico, de acercar-se impessoalmente dos objetos, das pessoas. E uma sede de objetividade que responde aos métodos científicos cada vez mais exatos nas ultimas décadas do século.

O distanciamento do subjetivismo é norma proposta ao escritor realista. A atitude de aceitação da existência tal qual ela se dá aos sentidos desdobra-se, na cultura da época, em planos diversos, mas complementares:

a) – no nível ideológico, isto é, na esfera da explicação do real, a certeza subjacente de um destino irreversível cristaliza-se no determinismo (da raça, do meio, do temperamento)…;

b) – no nível estético, em que o próprio ato de escrever é o reconhecimento implícito de uma faixa de liberdade, resta ao escritor a religião da forma, arte pela arte, que daria afinal um sentido e um valor à sua existência cercada por todos os lados. O supremo cuidado estilístico, a vontade de criar um objeto novo, imperecível, imune à pressões e aos atritos que desfazem os tecidos da história humana , originam-se e nutrem-se do mesmo fundo radicalmente pessimista que subjaz à ideologia do determinismo.

A comédia de costumes que desde Martins Pena e Macedo vinha espelhando alguns estratos da sociedade brasileira, especialmente os que convergiam para a Corte, continua, durante o Realismo, a atrair o interesse do público, apesar da concorrência do vaudeville parisiense e da ópera italiana, ambos em plena voga na segunda metade do século.

O nome de Artur Azevedo impõe-se então como o do continuador ideal de Martins Pena. Já o vimos saboroso poeta humorístico, mas ele mesmo declarava que os melhores versos que escrevera estavam espalhados em suas quase duzentas revistas. Metido na vida teatral desde a adolescência, Artur Azevedo conseguiu que fossem levadas à cena suas primeiras comédias como Amor por Anexins e Horas de Humor. O êxito fácil destas contribuiu para marcar os limites da sua criação, nivelando-a com o gosto do público médio; em contrapartida, desenvolveu-lhe os dotes de comunicabilidade, o que é quase tudo para um comediógrafo.

Para a história do nosso teatro, não só como texto, mas principalmente como uma estrutura complexa que abrange fatores vários, desde o substrato material da empresa até problemas de encenação e de interpretação, o papel de Artur Azevedo foi relevante: basta dizer que escreveu e fez representar comédias suas e alheias de 1873 até as vésperas de sua morte.


ARTUR AZEVEDO E SUA ÉPOCA

São Luís do Maranhão era, nos meados do século XVIII, uma cidade com imponentes construções. Sua imponência e grandeza não estavam apenas nas igrejas, mas nas residências particulares. Nas ruas principais, alteavam-se sobrados de dois, três e até quatro andares, de grossas paredes de pedra, com varandas e balcões. Eram moradias de grandes senhores de escravos, que tinham no suor do trabalho escravo a garantia de todo seu conforto presente e no futuro dos seus filhos.  O comércio era deixado quase totalmente aos portugueses que dominavam a cidade, a vender panos importados ou açúcar mascavinho. De quando em quando, quebrando a monotonia, a vida rotineira da capital provinciana, surgia na cidade uma companhia de cômicos, por duas semanas, alegrava os frequentadores do Teatro União. As famílias se exultavam e, a mocidade local se bipartia em dois partidos: estudantes e caixeiros, provocando rivalidades tremendas, suscitadas por atrizes que os dois partidos, inconciliáveis, não podiam admirar conjuntamente sob pena de se desonrarem… Enquanto isso, os letrados se divertiam com a prosa de João Francisco Lisboa no Publicador Maranhense. Assim a vida ia correndo em São Luiz do Maranhão, quando sua população foi aumentada, no dia 07 de Julho de 1855, com o nascimento do primogênito do vice-cônsul português, David Gonçalves de Azevedo, e de sua companheira, dona Emília Amália Pinto de Magalhães. O menino foi batizado como o nome de Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo.

Desde muito cedo, Artur Azevedo manifestou vocação para o teatro e, se não fosse a intervenção dos pais, teria com certeza abraçado a arte dramática. Aos 08 anos organizava espetáculos em sociedade com meninos da sua idade. Na biblioteca de seu pai o que chamava sua atenção eram as peças teatrais, muitas em francês. Aprendeu, com facilidade, a traduzir o idioma para poder lê-las. Aos 09 anos escreve seu primeiro drama “Trinta contos de réis”, com um prólogo e cinco atos, sobre um caso de consciência. O drama foi apresentado num salão que havia nos fundos do quintal dos Gonçalves de Azevedo, com um elenco infantil e dirigido pelo o autor.

“O Fantasma da Aldeia” é outro texto do tempo de criança e foi encenado em um teatrinho particular construído pelo comerciante alcunhado Manoel Bicudo.  Este texto, confessadamente, não passava de um plágio do “Fantasma Branco” de Joaquim Manuel de Macedo, que fora reduzido para um ato.

Tinha treze anos quando seu pai tirou dos estudos para trabalhar na casa de comércio do português Manuel Ferreira Campos. Artur só saía do estabelecimento para ver sua família de quinze em quinze dias. E a casa comercial ficava a uns duzentos metros da casa dos pais. Ao comerciante era investido todo o direito de um verdadeiro patriarca, um pai severo. A ele cabia toda a decisão relativa àqueles que estavam aos seus cuidados. Os empregados trabalhavam e viviam nas casas comerciais e eram tratados com se fossem escravos, sem nenhuma regalia. Artur Azevedo tivera que se conformar com a severa disciplina da época, em que os caixeiros não tinham licença para entrar em botequins e eram obrigados a usar jaqueta, um símbolo da servidão a que estavam submetidos. Trabalhava em troca de casa e comida. Dinheiro? Nenhum!

O teatro continuava a empolgá-lo, a ele e a outros empregados do comércio. Esses moços, em 1869, construíram no antigo Largo do Carmo, depois praça João Francisco Lisboa, um pequeno teatro, adaptando uma das dependências do Gabinete Português de Leitura. Foi batizado com o nome de Teatro Normal. Artur, além de autor, era também ator do grupo. Seu irmão mais novo, Aluízio de Azevedo, futuro romancista, era também ator do grupo e representava os papéis de ingênua. Tal como acontecia antigamente nos palcos da Inglaterra.

Depois de inaugurado o Teatro Normal, Artur Azevedo escreveu uma obra que ali foi representada. Não era coisa original. Era um assunto adaptado de uma novela do escritor português Antônio Pedro Lopes de Mendonça. Um melodrama de cenas patéticas, levava o título, muito ao gosto da época, de Fernando, o enjeitado. Alem desse melodrama, escreveu uma comédia para ser representada no teatro Normal: Indústria e celibato.

Em 1870, chega à cidade uma companhia de operetas, com duas lindas atrizes francesas, entorno das quais estabeleceram dois partidos: os dos caixeiros e o dos estudantes. Os caixeiros exaltavam Adèle, por sua graça e talento. Os estudantes exaltavam Pope. Os grupos não se limitavam só a isso, considerava a rival do seu grupo canastrona, uma medíocre, um estafermo. As atrizes, por sua vez, alimentavam estas disputas e se divertiam. Artur Azevedo encabeçava o grupo dos caixeiros. Acabou por se envolver em uma tremenda arruaça, indo parar na polícia, sendo um grande escândalo para sua família. Artur perdeu seu emprego como caixeiro no comércio do seu Manuel.

Fechada as portas do comércio, o caminho agora era o da burocracia. Artur ingressa na Secretaria do Governo como amanuense. Mais o rapaz no sossegava! Começa logo a escrever versos satíricos e a publicá-los. Em 1871, escreve “Carapuças”, dando alfinetadas em pessoas importantes da terra. Em 1872, lança a revista literária “O Domingo”, sua tentativa jornalística. Em tudo que escreve, vai transparecendo o crítico, o demônio da sátira, temido e detestado. Comete a imprudência de pisar nos calos de alguns figurões de grande influência política. Acaba por ser despedido, sem explicações, num ato injusto de represália.

Artur faz um concurso para preencher vagas existentes na Tesouraria na Alfândega do Maranhão. Passa em décimo sexto lugar, mas não consegue nenhuma das vagas, já que eram poucas. A lei, entretanto, lhe garante o direito de ser aproveitado em empregos de primeira entrância, desde que ele descobrisse a vaga e tivesse pistolões necessários para se fazer nomear. Na Província, o moço estava sob as vistas de seus desafetos, rancorosos e vingativos. No Maranhão não conseguiria nada. Artur não titubeia e comunica ao pai: VOU PARA A CORTE tentar a vida como jornalista, como escritor de teatro, como professor.

NA CORTE

Na mala levava não apenas cartas de recomendações que seu pai lhe arranjara, mas uma porção de sonetos entre os quais o “Típico”, publicado em seus livros póstumos, e até “Um passeio de bonde”, que havia de abrir o volume dos Contos em verso. Trazia também cópias de sua primeira comédia “Amor por anexins”, escrita para as meninas Riosas e por elas apresentadas não só no Norte do Brasil como em Portugal. Vinha cheio de coragem e de esperanças. Muito cedo se desiludiu da eficiência das cartas de recomendações conseguidas por seu pai.

Chegava disposto a conquistar a cidade, e a rua do Ouvidor era a veia mestra, a artéria dominante. Tudo o mais, para o Norte e para o Sul, era simples complemento, vivia-se e pensava-se em função da rua do Ouvidor. Era ali, na rua do Ouvidor, que estavam instalados alguns dos grandes jornais. E foi ali, que Artur Azevedo encontrou com o também maranhense, Joaquim Serra, que dirigia a folha A Reforma. Joaquim Serra, um dos precursores do teatro de revista em nosso país, poeta de merecimento e jornalista ilustre, de uma grande versatilidade, pois fazia de tudo na sua folha, desde artigo político à seção teatral e à crônica literária, comentando as últimas novidades surgidas no mercado editorial em prosa e verso. É nessa folha e tendo como mestre esse homem, que Artur dará os seus primeiros passos na corte, começando modestamente como tradutor de folhetins, geralmente romances populares, de autores franceses, de gênero melodramático, e como revisor único.

Os jornais do império tinham um arranjo gráfico sisudo, uniforme, monótono e maçante. A matéria era apresentada geralmente em colunas corridas, com títulos discretos. O que quebrava a austeridade eram as amenidades que todas as folhas queriam oferecer aos leitores: folhetins que eram escritos por um José de Alencar ou traduzidos por um Machado de Assis; poesias de grandes nomes e divulgadas em primeira mão; e os artiguetes, crônicas, comentários jocosos ou satíricos, apresentados todos os dias sob os mais extravagantes pseudônimos. Era o pandemônio dos pseudônimos. Muita coisa se perdeu, sendo impossível atribuir aos verdadeiros donos. Dava ao pseudônimo, não a irresponsabilidade, mas o desembaraço de comentário e o direito de ser frívolo, superficiais, ligeiros, sem comprometer o nome já feito nas letras, na política ou em outras atividades. Além do mais, disfarçava a carga de trabalhos que recaía sobre os ombros de um único redator ou colaborador, dando à folha a impressão de ter a seu serviço uma legião de intelectuais.

Rapidamente Artur conquistou outros postos de relevo em outras folhas. Pertenceu, até 1878, à redação do Diário do Rio de Janeiro, que nesse ano deixou de circular. Ali escreveu o folhetim Bric-à-Brac, a crônica teatral e, além disso, publicou em rodapé alguns dos seus contos, entre os quais Um capricho. Usava Artur, então, o pseudônimo de “Dorante”, que era um personagem de Molière. São vários os pseudônimos de Artur Azevedo: “A.A”, “Eloy, o herói” com o qual assinava a seção “De Palanque” do Diário de Notícias, “Gavroche” dos versos humorístico de O País. Nesse mesmo jornal também assinava A.A. nas “Palestras”, assinava como “Frivolino” a coluna intitulada “Frivolidades”. Era também: “Cósimo”, “Crachit”, “Petrônio”, “X.Y.Z.” e “Juvenal”.

Como jornalista e como autor teatral sustentou, não raro, polêmicas em que se revelou adversário perigoso e vivaz. Atacado em prosa chilra, às vezes respondia em verso. E nem por isso era menos ferino e contundente. Artur não se impressionava diante dos adversários das mais elevadas estatura intelectual. E não foram poucos aqueles com que se mediu. Fazendo jornalismo por amor à profissão, respeitando os verdadeiros valores, detestava as gralhas, as mediocridades, os parvenus, os arrogantes. E não os poupava, zurzindo-lhes o pelo sempre que podia.

Aqueles que eram realmente jornalista mereciam sua estima e admiração. Conviveu intimamente com os maiores de sua época: José do Patrocínio, Ferreira de Araújo, Rui Barbosa, Quintino Bocaiúva, Lopes Trovão, Coelho Netto, Olavo Bilac, Ernesto Senna, Eduardo Salamonde, Filinto de Almeida etc. A simplicidade do seu estilo, vivo, ágil, bem-humorado, mas nunca pretensioso ou pedante, encantava os leitores.


O TRADUTOR

Como tradutor Arthur Azevedo foi à vezes traidor. Se desconfiava do êxito de um texto, numa versão literal, tangenciava, adaptando, deformando-o, parodiando-o, imitando-o, a fim de manter-lhe ou realçar-lhe a graça, os efeitos cômicos, a vivacidade, que de outro modo não desvaneceriam. O teatro de se tempo impunha esse tipo de adaptação, em que a chalaça grossa fazia com que as galerias e plateias tivessem convulsões de riso, mas as invenções inteligentes, os diálogos mais sutis, as frases mais brilhantes passavam despercebidas, quando não provocavam bocejos de tédio. Sabia ele, por experiência própria, o que era o público do teatro musicado do rio de Janeiro dos fins do século XIX. E era para esse público que escrevia, traduzia e publicava. Não que não tenha feito tentativas de seguir outros caminhos, escrevendo peças de melhores qualidades literárias. Mas essas eram as que não caíam no gosto do público, sendo vaiadas, como é o caso de A Fantasia, que estimava como sua obra prima. O público da época preferia as paródias às obras originais. Por isso, as traições do tradutor Artur Azevedo não eram traições. Eram um benefício, senão para os autores, ao menos para os empresários que encomendavam o trabalho e que  deles tiravam altos lucros.

Dentre as adaptações feitas por Artur Azevedo está A Filha de Maria Angu que foi baseada na obra La fillhe de Madame Angot de Siraudin, Clairville e Koning. A sua adaptação foi feita para o gosto do público, feita instintivamente, sem ter recebido nenhuma encomenda de empresário, mas por mero desafio. A adaptação foi apresentada ao empresário Heller, convertendo-se num dos maiores sucessos da Fênix Dramática. Arthur Azevedo tinha 21 anos quando estreou A Filha de Maria Angu (21/03/1876).

Antes mesmo de A Filha de Maria Angu, Artur Azevedo já havia feito sucesso como duas obras originais, peças em um ato: Amor por anexins e Uma Véspera de Reis.

Com o sucesso de A Filha de Maria Angu, Artur conquista definitivamente uma situação no Teatro. Daí por diante, não teve mão a medir. Traduziu e adaptou operetas, dramas, comédias, mágicas, sonetos.

Seriam necessárias folhas e folhas para relacionar todas as numerosas traduções que Artur Azevedo realizou durante os seus trinta e poucos anos de vida teatral no rio, sozinho ou em colaboração. Para suas traduções, de certo, ele não precisava de colaboradores, mas muitas delas aparecem assinadas com outros autores em moda. O que pode explicar esse fato é, principalmente, a urgência com que estes trabalhos deviam ser feitos. Qualquer companhia teatral, naqueles tempos de público escasso e da necessidade de sempre ter em cartaz espetáculos novos, consumia um vasto repertório, a menos que surgisse miraculosamente uma Filha de Maria Angu para cair no gosto da platéia. Os teatros eram fornalhas que era preciso alimentar com manuscritos e mais manuscritos. Nos seus apertos, os empresários por vezes distribuíam, das peças escolhidas, um ato a cada tradutor. E começavam a ensaiar pelo que mais depressa lhe chegasse às mãos, ainda que começando pelo fim.

Tão rápida e segura foi a ascensão de Artur no teatro, sendo seu trabalho tão fecundo e proveitoso, conquistando a confiança dos empresários, que dez anos após ter chegado ao Rio de Janeiro, Artur embarcava para a Europa, graças a seu trabalho no teatro. Muitos foram os locais visitados, muitas foram as pessoas importantes que por lá encontrou ou assistiu, muitos foram os programas assistidos: teatro musicado, várias revistas em Paris e Madrid. Da Europa, voltou Artur trazendo dezenas de peças, de todos os gêneros, para continuar aqui o seu trabalho como tradutor e parodiador habilíssimo.


TEATRO DE REVISTA

O teatro de revista nasceu na França, de início uma mistura de comédia e de opereta, com intuitos de sátira social e política. Várias nações a adotaram, inclusive o Brasil. Tomou, depois, o seu caráter atual, convertendo-se numa miscelânea em que cabe tudo: canções, sketches, baixa comédia, acrobacias, monólogos etc., sem esquecer as “apoteoses” que durante muito tempo foram “patrióticas” e que depois se tornaram uma reverência ao belo, ou um pretexto para os “nus artísticos”.

No Brasil, as primeiras revistas eram uma espécie de recapitulação dos principais acontecimentos do ano que se encerrava. Por isso se chamava sempre “revistas do ano”. As estreias destas revistas aconteciam nas últimas semanas do ano que expirava, ou nas primeiras semanas do ano seguinte.

Artur Azevedo não demora e também toma às mãos o cetro da revista. A sua primeira revista O Rio de Janeiro em 1877, em parceria com o português Lino de Assunção, encomendada pelo popular ator José Antônio do Vale, não obteve aceitação pelo público, fosse pela a inexperiência dos autores, fosse pela má escolha dos cenários e pela pobreza do guarda-roupa, ou deficiência da direção.

Ocupado com as suas traduções e adaptações de peças estrangeiras, somente sete anos depois é que Artur Azevedo retornará para a revista. Dessa vez, em parceria com Moreira Sampaio, escreve O Mandarim, que estreou no Teatro Príncipe Imperial. A revista alcançou notável sucesso, especialmente devido ao fato de introduzir, em definitivo, no nosso teatro, a caricatura pessoal. A revista começava a se impor, vencendo obstáculos, incompreensões, desafiando melindres e suscetibilidades. Era perigoso para uma autor ou dupla de autores fazer alusões pessoais, a copiar ao vivo figuras conhecidas da política, das letras ou da sociedade. Mais não é por isso que a dupla, Artur Azevedo e Moreira Sampaio, irá desistir. Depois de O Mandarim, a dupla escreveu Cocota, uma revista com enredo, levado à cena no teatro Sant’ana, no dia 06 de Março de 1885.

O Novo gênero teatral estava lançado e a dupla Artur e Moreira Sampaio já haviam adquirido o treino e a agilidade necessários para conquistar, em definitivo, a estima do público. Mas para firmar-se definitivamente, a revista, precisava de alguma coisa que mexesse com as camadas populares, levando-as a adotar, como seu, aquele gênero de teatro. Artur e Moreira Sampaio escrevem O Bilontra (1886), tirado da crônica policial e judiciária do Rio. Baseado no caso do golpe sofrido pelo comerciante português, comendador Joaquim José de Oliveira. O comendador, homem que sonhava em ter um título de nobreza, é abordado por um bilontra, gíria da época para golpista, que lhe promete conseguir um título de barão, dentro das suas influências no império. O comendador cai na história do bilontra.

O caso se arrasta no tribunal do Júri, e antes mesmo de chegar lá, chega ao teatro, arrancando muitas risadas no Teatro Lucinda. A peça teatral antecipou ao julgamento, pois em vez de se colocarem contra o bilontra, o que faziam era troça do comendador e sua veleidade de novo rico. Enquanto o comendador esbravejava, tentando, a todo custo e sem sucesso, proibir a revista, o público continuava a rir, rir, da sua cômica aventura.

Com o sucesso e ainda com eco das risadas, os dois comediógrafos não perderam tempo, trataram logo de aproveitar o filão descoberto. Escreveram nova “revista do ano” intitulada O Carioca, levado à cena no Imperial Teatro D, Pedro II, a 31 de Dezembro de 1886. Mais uma vez o Comendador surge em cena.

Outras pessoas, Sarah Bernhardt – Ferreira de Araújo – Castro Lopes (gramático), foram satirizados, transformados em caricaturas nas revistas de Arthur e Moreira Sampaio, e que tentavam sempre desmoralizar as revistas, impedindo suas apresentações. Era a consagração, a popularidade, o prestígio que afinal aureolavam a revista, antes sem eco, sem repercussão, nascendo e morrendo sob os olhos de plateias indiferentes e desinteressadas, A caricatura viva tomava foros de instituição teatral.

A dupla escreve ainda: Mercúrio, revista de 1887 e O Capadócio, revista de 1888. Daí por diante houve uma longa separação dos dois colaboradores que tão bem haviam se entendido. Tinham fama demais. Cada um seguiu seu rumo. Moreira Sampaio conquistou sucesso como os da Inana e do Rio Nu. Artur Azevedo, competindo com o antigo parceiro, escreveu mais dez revistas, fora comédia, traduções e adaptações, pois sua pena nunca descansava. Seu nome ficou, com os de Joaquim Serra e Moreira Sampaio, ligado ao nascimento desse novo gênero de teatro no Brasil: a revista.

EM TEMPO

Desde que chegou ao rio de Janeiro, Artur Azevedo se pôs a trabalhar em jornais. Mas a agoniada vida de jornal, tão mal retribuída, não bastaria para garantir a sua existência e sua estabilidade desejada. Trazia muitas cartas de recomendação. Uma dessas cartas destinada ao parlamentar maranhense Augusto Olímpio Gomes de Castro, amigo de seu pai e um homem de bem. Tinha já quase 20 anos de idade quando resolveu procurá-lo. Levava no bolso a certidão do concurso em que fora aprovado no maranhão em 16.º lugar. Foi bem recebido pelo conselheiro, que o indicou ao ministro da Agricultura do gabinete Paranhos.

Artur Azevedo foi nomeado amanuense. Sua existência estava, agora, ao abrigo das incertezas e dos sobressaltos. Agora poderia se dar ao luxo de escolher o seu trabalho, de trocar a revisão pela redação, pelas colunas em que pudesse expor suas próprias idéias, em vez de simplesmente melhorar a ortografia e o vernáculo dos outros. Foi o que fez, mas sem nunca desprezar o emprego público, esforçando-se para subir na hierarquia burocrática. Talvez por isso, por não depender do teatro como meio de vida, tenha tido neste uma posição invejável, sem ser explorado como tantos foram.

Artur era funcionário exemplar, metódico, organizado. Um processo não lhe saía das mãos sem ter sido cuidadosamente estudado e seus pareceres ema claros e concisos. Não encerrava um processo sem indicar, à margem, a data do Diário Oficial em que fora publicado o despacho.

Nas suas crônicas, como em alguns dos seus contos, mostrou-se Artur Azevedo um analista bem-humorado das pequenas comédias da vida burocrática. O hábito de descarregarem os responsáveis as culpas que lhes cabem nos seus subordinados imediatos, fornecei-lhe o motivo de uma deliciosa historieta.

Observador sagaz, decerto lhe ferira sempre a atenção o espetáculo mesquinho das rivalidades entre grandes e pequenos funcionários. Fez-lhes a caricatura, em traços grossos, com exagero, mas nunca sem alguma verdade. A burocracia não era apenas um dos seus meios de ganhar a vida: era também, para ele, um posto de observação, uma seara de tipos pitorescos, que ia aproveitando em suas páginas mordazes.

TEATRO E O MOVIMENTO ABOLICIONISTA

De forma alguma é exagero apontar o teatro como uma das forças que mais contribuíram para dar importância ao movimento abolicionista. O teatro era o ponto em que o povo entrava em contato mais direto com os intelectuais, todos eles, salvo raríssimas exceções, convertidos à causa dos escravos, em razão dos benefícios da cultura e da tendência liberal predominante nos meios acadêmicos.

A partir 1870, pouco antes da chegada de Artur Azevedo na corte, todos os espetáculos de gala terminavam com discursos a favor à causa abolicionista. Esse discurso, geralmente feito pelo ator principal, era acompanhado pela platéia que solicitava a atenção da casa. Nesse mesmo ano Paranhos apresenta o projeto da Lei do ventre Livre, que foi sancionada em 1871. Mesmo ante dessa lei ser sancionada, os artistas de teatro já estavam promovendo libertação de escravos. Em 1869, antes mesmo de ser ter iniciado o debate que levaria à aprovação da lei, no Teatro Lírico, o ator dramático italiano Ernesto Rossi fez um discurso afirmando que o imperador do Brasil, não podia fazer melhor coisa em seu reinado que dar liberdade aos escravos. Ernesto empolgou a platéia, o velho teatro mal podia conter os seus cinco mil espectadores. Daí por diante, o exemplo foi seguido. Arrebatando plateias.

As casas de espetáculos abrem suas portas para conferencias anti-escravagistas. No Teatro são Luís, todos os domingos, realizavam palestras públicas, tendo na sua tribuna José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, Rebouças, etc. No Teatro D, Pedro II, a 06 de março de 1881, acontece um grande festival em honra ao Ceará abolicionista. Nesse festival acontece um conflito entre Rebouças, que dirigia o espetáculo, e Sílvio Romero que defendia a escravidão. Os escravocratas reagem e a direção do Teatro São Luís fraqueja, negando a sala para a trigésima sexta conferência. Imediatamente, outro teatro, Ginásio, abre suas portas aos pregadores da libertação dos negros.

Artur Azevedo encontra-se no meio dessa efervescência, simpático à causa, resolve contribuir, incentivado por Joaquim Nabuco, com sua palavra de autor teatral, para a campanha de libertação. Artur estuda o texto da Lei do ventre livre e elabora uma comédia de um ato, O Liberato, história de um escravo que tinha a má fortuna de pertencer a senhores sem coração. A primeira apresentação foi no dia 16 de setembro 1881, no Teatro Lucinda.

A campanha emancipacionista ia prosseguindo, nos comícios e conferências. Além do Teatro Ginásio, agora também o Teatro Recreio Dramático abre suas portas, realizando no dia 08 de dezembro de 1883, novo festival em honra do Ceará, agora com o nome de Terra da Luz. É impossível agora deter a ideia em marcha. Enquanto se processava o movimento, nas ruas, nas casas do legislativo, novas produções teatrais de caráter abolicionista iam surgindo. Arthur Azevedo mais uma vez usa da sua tribuna, o teatro, escreve uma obra dramática, A família Salazar – 1882, em colaboração com Urbano Duarte, que depois foi publicada com o título de O Escravocrata. O teatro em peso colaborava. Já não dava mais para aguentar os cativeiros com seus dois extremos: o cativo oprimido e o senhor de escravos opressor.

Artur Azevedo, com a sua popularidade de homem de teatro e de humorista, além de escrever O Liberato, sempre esteve presente, solidário com todas as festividades teatrais e “benefícios”, destinados a angariar fundos para libertação de escravos.

No jornal O Mequetrefe, Artur Azevedo teve uma importante tribuna na defesa dos escravos. As cenas torpes da escravidão, os açoites e torturas de negros, eram reproduzidos nas suas páginas, de forma realista e impressionante.

Não poderá ser escrita a verdadeira história do abolicionismo no Brasil sem fixar os gestos humanitários de autores, atores e atrizes que, por sua espontaneidade, empolgavam o velho Rio de Janeiro.


UMA VIDA

No dia 22 de outubro de 1908, às 09:45 da manhã, Artur Azevedo cerrou os olhos para sempre. Muito popular, ao ser divulgado a notícia de que seu estado era grave, à porta de São Cristóvão formavam-se aglomerações de curiosos, querendo notícias, exprimindo sua simpatia ao enfermo. Morto, o enterro teve o cunho de uma consagração pública. Personalidades ilustres, escritores de renome, ministros de Estados, políticos de prestígio nacional, membros da Academia Brasileira de Letras que ele ajudou a fundar – além desses, os trabalhadores de teatro – seus interpretes, seus amigos, seu beneficiados de todas as horas – ali estavam rendendo homenagens ao amigo constante e indefectível, das horas boas e das horas más.

PRINCIPAIS OBRAS

Obra Teatral:

Amor por Anexins, s. d. (1872?); Horas de Humor, 1876;  A Pele do Lobo, 1877;  A Jóia, s. d.;  A Princesa dos Cajueiros, 1880;  O Liberato, 1881;  A Mascote na Roça, 1882;  A Almanjarra, 1888;  O Tribofe, 1892;  Revelação de Um Segredo, 1895; O Major, 1895;  A Fantasia, 1896;  A Capital Federal, 1897; Confidências, 1898;  O Jagunço, 1898; O Badejo, s. d.; Gavroche, 1899;  A Viúva Clark, 1900;  Comeu!, 1902;  O retrato a óleo, 1902; A Fonte Castália, 1904;  O Dote, 1907;  O Oráculo, 1907.

Obs.: A partir de 1955, vêm sendo publicadas peças inéditas de Artur Azevedo pelos Cadernos da Revista da SBAT (Sociedade Brasileira de Amigos do Teatro).

Contos e poesias:

Carapuaças, poesias 1871, Sonetos,1876; Um dia de finados – sátira, 1877; Contos Fora da Moda, 1894; Contos Efémeros, 1897; Contos em Verso, 1898;  Contei Possíveis, 1908; Vida Alheia, contos (1929); O Oráculo (1956); Teatro (1983).

Revistas em parceria Moreira Sampaio:

O Mandarim, 1884; Cocota, 1885; O Bilontra, 1886; Mercúrio, 1886; O Carioca, 1887; O Homem 1887; Dona Sebastiana, 1889

Revista em Parceria com Aluísio de Azevedo, seu irmão:

A República, 1890

A CAPITAL FEDERAL

Sinopse:

Uma família do interior de Minas Gerais chega à capital federal a procura de um rapaz que prometera casamento à filha e nunca mais apareceu. O tal rapaz está envolvido com Lola, a espanhola que tudo faz para lucrar com os homens. E um desses homens será Eusébio, o pai e fazendeiro de Minas, fazendo o percurso do ingênuo mundo rural para o imoral, corrompido e neurótico urbano.

Análise da obra:

Em “A Capital Federal”, Artur Azevedo, nos apresenta com muito humor os costumes urbanos do final do século XIX, colocando sua visão crítica sobre o crescimento urbano e suas contradições através de seus personagens estigmatizados. Vários quadros são criados, nos dando um panorama da Capital Federal, sempre apoiados nos estereótipos de alguns segmentos sociais. Os tipos são sempre baseados na realidade, estando sujeitos a moral vigente, as regras do convívio social, e quando esta moral, estas regras são subvertidas, os personagens são punidos.

As personagens são colocadas em oposição, como por exemplo, o que ocorre entre Lola e o fazendeiro Eusébio, e também o deslocamento de personagens do ambiente rural para o urbano, como é o caso da família que chega do interior de Minas. Este deslocamento fica mais claro na personagem Benvinda,- que sofrerá uma transformação,  ficando evidenciado o desajuste entre a sua origem de escrava e a nova posição de cocote. Esse desajuste gera cenas de muito humor, deixando clara a impossibilidade da personalidade em se adaptar a nova vida.

No primeiro quadro, temos a apresentação dos personagens, tendo como cenário o Grande Hotel da Capital Federal. Aqui já podemos ver as características de cada personagem e quais as suas intenções. Revelado isso, cada uma das personagens parte em busca dos seus objetivos. Lola quer encontrar seu amante Gouveia, um viciado em jogos, e exige dele presentes, bens materiais.  Eusébio por sua vez, também quer encontrar Gouveia, que fugiu de Minas, deixando sua filha Quinota com uma promessa de casamento. E correndo por fora está Figueiredo, um homem que aprecia mulatas e que ao ver Benvinda, interessa-se por ela e quer transformá-la.

Tendo já os tipos intensamente caracterizados, eles passeiam pelos cenários da Capital Federal, buscando meios, às vezes sem ética e moral, para conquistar seus objetivos. A expressão cômica é reforçada, combinando gêneros do teatro popular, entre buscas e fugas desabaladas, questionando os vícios, a corrupção e os amores mundanos e interesseiros.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Um homem apaixonado por sua arte.

Artur Azevedo, desde muito cedo se mostrou um contundente crítico, sem faltar-lhe o senso de humor. E é com todo esse humorismo que ele nos traça um retrato da sociedade carioca dos últimos anos do século XIX, o seu lado boêmio.

Se rir é o melhor remédio, então, Artur encontrou o melhor caminho para discutir com a sociedade da época e, ainda hoje, com a sociedade atual, a falta de caráter e os vícios humanos. Não que não tivesse tentado falar de assuntos sérios. Tentou. Mas a sociedade não se interessava. Torcia o nariz. Nada melhor que rir dos nossos defeitos, através de um espelho, o outro.

Alguns estudiosos acusam Arthur Azevedo de ter limitado sua obra ao gosto do público médio. Mas ele era um homem inserido na sua época, discutindo ou tentando discutir assuntos, e o caminho foi o humor, que pode até ser superficial, mas capaz de mobilizar plateias, esfregando na sua cara suas próprias mazelas. E se a sociedade queria se divertir, nada melhor que fazê-la rir, rir, rir… mas identificando os tipos e, muitas das vezes,  fazendo um auto reconhecimento.

Um homem apaixonado por seu país, sempre inserido nas principais discussões, seja como jornalista e, principalmente, usando sua principal tribuna: o TEATRO.


BIBLIOGRAFIA

AZEVEDO, Arthur. A Capital Federal. Coleção Obra-prima de cada autor. São Paulo: Martin Claret, 2003.

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 43 ed. – São Paulo: Cultrix, 2006.

JÚNIOR, R. Magalhães. Arthur Azevedo e sua época. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S.A, 1966

MARTINS, Antonio. Artur Azevedo: a palavra e o riso. São Paulo: Perspectiva; Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1998.

SEVERINO, Antônio Joaquim. “Metodologia do trabalho científico”, 22. ed. rev. e ampl. de acordo com ABNT – São Paulo: Cortez, 2002.

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4 comentários em “Artur Azevedo

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